De 26 de Dezembro de 2006 a 2 de Janeiro de 2007 - Ano II - Edição 69

Entrevista

Pobreza inibe privatização de saneamento

 

                                                    As condições econômicas e sociais da população brasileira restringem o número de empresas privadas operando na área de saneamento. Essa é a avaliação do engenheiro civil Flávio Presser, diretor-geral do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre. No comando da companhia apontada pelo RDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) 2006 como exemplo de empresa pública eficiente no setor de saneamento, ele defende que a única maneira de levar os serviços aos pobres é praticando o subsídio cruzado — sistema em que os moradores de bairros ricos pagam tarifas maiores para subsidiar o serviço nas comunidades carentes. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

 

Por que são raros os casos de empresas públicas que conseguem, sem sobrecarregar a tarifa, universalizar o atendimento e manter o equilíbrio econômico?

Flavio PresserA proposta de universalizar o atendimento e manter o equilíbrio das contas, sem resultar em aumento de tarifa, depende muito da gestão profissional que é aplicada na empresa. Mesmo se tratando de uma empresa pública, é possível gerenciar gastos, planejar investimentos e oferecer um serviço de qualidade com preços compatíveis ao poder aquisitivo dos cidadãos. A dificuldade em universalizar os serviços de água e esgoto está, principalmente, na necessidade de investimentos elevados para a montagem da infra-estrutura, o que requer uma continuada política de financiamento, fazer restrições aos gastos correntes e manter a autonomia do prestador do serviço.

 

Como chegar a esse equilíbrio entre eficiência e preço justo?

Presser O equilíbrio está fundamentado em dois fatores: ferramentas de gestão que permitam planejar e executar uma política de custos e investimentos saudável; e a conscientização da população para que se permita que a parte mais pobre pague menos e os que têm mais condições subsidiem esta política. É, acima de tudo, necessário que o prestador de serviços de saneamento básico goze de bom conceito junto à comunidade e que esta confie que ele fará bom uso do excedente pago pela população que subsidia a tarifa social.

 

Embora seja categórico afirmar que privatizar não é uma solução para o saneamento, o Relatório do Desenvolvimento Humano 2006 admite que, "nas condições institucionais certas, o setor privado pode fornecer a tecnologia, a competência e os recursos necessários" para ampliar o acesso a saneamento. O estudo ainda cita casos em que a concessão a empresas privadas melhorou a eficiência, reduziu as perdas, expandiu o fornecimento e aumentou o faturamento. Com um marco regulatórios adequado, dar mais espaço à participação do setor privado pode ser uma solução para impulsionar o saneamento no Brasil — uma das áreas em que o país está mais atrasado nos Objetivos do Milênio?

Presser Existem serviços onde a livre concorrência não tem condições de acontecer, como é o caso da água e do esgoto cloacal. Nesses casos, a eficiência na prestação dos serviços não se dá pela competição, mas pela existência de um sistema regulatório independente. O Relatório do Desenvolvimento Humano 2006 destacou que o importante é que a população tenha acesso à água de qualidade, em quantidade suficiente para satisfazer suas necessidades básicas e a um preço acessível. Isso pode ser atendido por uma empresa pública e o Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre é uma prova disto.

 

Ao longo da década de 1990, diversos países da América do Sul privatizaram, pelo menos em algumas cidades, os serviços de água e saneamento. O RDH 2006 frisa que no Brasil, das 27 capitais, apenas duas são servidas por empresas de capital misto (ou seja, nem são totalmente privadas). O sr. acha que há, no Brasil, uma resistência maior à privatização?

Presser As condições econômicas e sociais da população brasileira é que restringem o número de empresas privadas operando na área de saneamento. Sabemos que grande parte dos Estados e municípios no Brasil passa por sérias dificuldades financeiras, mesmo sendo a carga fiscal muito elevada. Isso não permite que haja subsídios suportados por impostos, e são as tarifas cobradas pelas prestadoras de serviço as responsáveis pelos subsídios cruzados internos. Como a renda de grande parte da população não possibilita o pagamento integral dos custos de produção de água e tratamento do esgoto, a lógica do lucro fica comprometida.

 

O RDH 2006 aponta o DMAE de Porto Alegre como exemplo de empresa pública que conseguiu universalizar a cobertura com eficiência e preço justo. Quais foram os fatores fundamentais que levaram a esse resultado?

Presser Primeiramente, o fato de o DMAE existir 45 anos como órgão com autonomia administrativa e financeira. Segundo, a competência de seu quadro de servidores. O fato de o DMAE contar, desde a sua criação, com um conselho deliberativo formado por representantes de várias entidades da sociedade civil também corroborou para que ele tivesse uma política de prestação de serviços voltada à comunidade.

Por último é importante salientar a disposição da sociedade porto-alegrense em manter uma política tarifária altamente subsidiada para a população mais pobre da cidade, pois, sem isto, ela não poderia ter acesso à água de qualidade.

 

O sr. acha que medidas semelhantes trariam o mesmo resultado em cidades menores, onde o número de consumidores é menor e as distâncias, maiores?

Presser É claro que uma capital como Porto Alegre tem o efeito escala que lhe dá condições mais favoráveis para uma amortização acelerada dos investimentos e uma política de subsídios cruzados própria. Em cidades menores, que não disponham destas condições, as alternativas são a gestão associada e os consórcios municipais, de tal maneira que permita uma equação econômica mais favorável.

 

Quais são os principais problemas que Porto Alegre enfrenta hoje no setor?

Presser Porto Alegre possui um manancial de volume privilegiado. A água, em abundância, permite que se abasteça 100% da população. Mas temos fragilidade no que compete à preservação destes mananciais. No lago Guaíba, a principal fonte de captação do DMAE, o aporte de carga dos seus principais contribuintes, fruto do contínuo lançamento de efluentes doméstico, agrícola e industrial, provoca um progressivo decréscimo da qualidade das suas águas. Uma idéia do que está ocorrendo se deu recentemente com a mortandade de toneladas de peixes verificada no rio dos Sinos, um de seus afluentes. O surgimento das algas cianofíceas nos períodos quentes de verão é uma conseqüência desses fatos. Outro problema é o ainda baixo índice de tratamento dos esgotos cloacais da cidade.

 

Por: Alan Infante, da PrimaPagina

PNUD: http://www.pnud.org.br

Crédito da foto: Prefeitura de Porto Alegre / Cristine Rochol

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