De 29 maio a 04 de junho de 2007 – Ano II – Edição 90

Entrevista
 

Conseqüências  da oscilação do dólar para os profissionais liberais

 

Nas últimas semanas, um assunto que tem pautado a mídia é o gradativo declínio das taxas de câmbio com relação à moeda norte-americana. O baixo risco Brasil, a inflação controlada e as altas taxas de juros nacionais têm sido apontados como causas dessa apreciação. O assunto, porém, gera polêmica no que se refere aos reais impactos deste fenômeno para a economia nacional e, conseqüentemente, para a vida do trabalhador brasileiro. O vice-presidente do Sindicato dos Economistas do Distrito Federal-Sindecon/DF, professor universitário Prof. Régis Varão, Doutor ABD em Economia, esclareceu nesta entrevista quais são as variáveis que interferem nessas taxas de câmbio, opinando sobre o assunto, além de mencionar a postura do Banco Central e demonstrar otimismo em relação à economia nacional.  

 

Quais são os fatores determinantes para a atual situação de desvalorização do dólar em relação ao real?

 

Nos últimos meses a taxa de câmbio tem se apreciado por causa de vários fatores, tais como: o forte ingresso de recursos externos no País; a obtenção de crescentes saldos no balanço comercial (recordes sucessivos, inclusive em 2006), o declínio sistemático do risco Brasil (atingiu 150 pontos, o menor nível desde a criação do índice pelo JPMorgan) e não deixando de considerar a atuação conservadora da Autoridade Monetária. Assim, a estabilidade dos fundamentos da economia têm contribuído indiretamente para essa conjuntura. É importante perceber nesse período de forte ingresso de recursos externos no País e de crescentes saldos da balança comercial, a grande valorização dos preços internacionais das commodities, o que ajudou substancialmente para a obtenção dos crescentes saldos da balança comerciais.. Não podemos desconsiderar o fator China como fator de pressão de demanda ajudando para a valorização dessas commodities, tendo em vista que aquele país é grande demandante de commodities agrícolas e metálicas. Outro exemplo, temos uma empresa brasileira, a Cia Vale do Rio Doce (CVRD), que é formadora de preço no mercado internacional de minério de ferro, uma commodity importante. Outro fator a considerar é a desvalorização que a moeda norte-americana vem apresentando nos últimos meses. Assim, o fenômeno que está acontecendo no Brasil não pode ser considerado um fenômeno isolado, o dólar está se desvalorizando frente às principais moedas internacionais. 

 

Como os investidores estrangeiros têm se posicionado frente ao risco Brasil?

 

Os investidores internacionais quando decidem colocar seus recursos em algum país, eles avaliam vários fatores e o risco país, calculado pelo banco JPMorgan, é considerado um dos mais importantes na hora de alocação desses recursos a busca de melhores negócios, maior rentabilidade, segurança e liquidez. Nesses últimos anos, o risco-Brasil tem caído substancialmente (já esteve acima de 2700 pontos) e tem atraído muitos investidores internacionais. E isso é importante porque acaba gerando um círculo virtuoso. O cenário de uma economia segura, estável, com uma meta de inflação que está sendo cumprida, com as instituições funcionando normalmente é um grande e importante porto seguro para investidores internacionais.

 

Quais as perspectivas com relação às exportações e os reflexos da queda do dólar no curto prazo?

 

Sempre foi dito que as exportações dependiam muito do câmbio desvalorizado. Paradigma quebrado, pois o Brasil está obtendo saldos positivos e sistemáticos na sua balança comercial com o câmbio apreciado. Por outro lado não podemos desconsiderar um fator relevante para a obtenção desses saldos crescentes, é que a valorização das commodities no mercado internacional tem ajudado muito o Brasil, tradicional exportador de commodities. Não podemos desconsiderar o fator China como fonte de pressão de preços internacionais. Essa história de dizer que tem que depreciar o câmbio para exportar mais, não tem suporte na atual conjuntura, pois estamos com câmbio apreciado e continuamos obtendo saldos crescentes na balança comercial brasileira. O Brasil é privilegiado como produtor-exportador de algumas commodities agrícolas e minério de ferro, embora temos empresas que não se prepararam para os novos tempos de câmbio apreciado e, nesse caso, estão sofrendo com a concorrência cada vez mais próxima, algumas vezes concorrência desleal. Por exemplo, o setor calçadista e o têxtil sofreram muito com o câmbio apreciado, além de que a concorrência chinesa está desequilibrando aqueles setores. Essas empresas perderam espaço e algumas ficaram com dificuldades financeiras e, até mesmo, após anos de produção simplesmente tiveram que fechar suas instalações, não suportaram a concorrência chinesa, o câmbio apreciado e a carga tributária entre outros.

 

E o câmbio apreciado traz de positivo?

 

Existem empresas que são competitivas, porque se prepararam, investiram em capital humano e em equipamentos. Os equipamentos e máquinas sofisticadas estão baratas nesse tempo de câmbio apreciado e, o setor que vislumbrou isso continuam no mercado. Grande parte da indústria já se adaptou a essa situação de câmbio apreciado.  Nunca antes tivemos saldos de balança comercial ano de US$ 100 bilhões, hoje isso já ocorre. Além disso, nós temos uma disponibilidade de bens de consumo que dependem de matérias-primas importadas a um preço menor, o que é bom para o consumidor brasileiro. Os viajantes da classe média estão adorando o câmbio apreciado. Câmbio apreciado tem vantagens e desvantagens, mas as primeiras são proporcionalmente maiores e melhores que as últimas.

 

Podemos considerar a valorização do real também como resultado dos altos juros brasileiros em relação aos demais países?  Existe uma necessidade de mudança nessa política monetária?

 

Os juros do Brasil sempre foram elevados, mas o Banco Central adotou uma política consistente e conservadora de redução da taxa de juros. A Autoridade Monetária tem sofrido críticas constantes da imprensa, do vice-presidente da república, do atual ministro da fazenda quando presidente do BNDES, de parlamentares influentes, de  empresários etc, mas como os tempo mudaram o Banco Central tem atuado com autonomia na hora de decidir sobre a nova taxa de juros (Selic). O Banco Central  antes de tomar a decisão (são dois dias de reuniões) sobre a taxa de juros, discute o cenário internacional, o comportamento dos preço internos e das commodities internacionais, ou seja, leva em consideração uma série de variáveis macroeconômicas antes de decidir sobre a taxa de juros. Então o Banco Central, apesar das pressões vem gradativamente reduzindo as taxas de juros. Antigamente quando o presidente da república queria reduzir os juros, chamava o ministro da fazenda e o presidente do Banco Central e decidia sobre os juros. Tempos passados, não resta dúvidas que as taxas de juros ainda estão altas e poderiam ter sido reduzidas um pouco mais. Mas tem que se ter uma postura pragmática e responsável e por isso, mesmo com todos esses pontos que temos aí, nada afetou a decisão do Banco Central no que se refere à política monetária. Assim, não podemos afirmar que a valorização do real frente ao dólar dos EUA decorrem de outros fatores, já explanados.

 

Você acredita que existe um ponto de equilíbrio do dólar para evitar pressões inflacionárias?

 

Apesar da aparente barreira dos R$ 2,00, eu acredito que um valor adequado para a taxa de câmbio e, que não criaria mais problemas seria uma taxa de câmbio entre R$ 1,90 e R$ 1,95. Mas eu não teria como mencionar qual é taxa de câmbio adequada para a economia brasileira, porque isso depende da estrutura de custos do setor (alguns produtos têm grande participação de matérias-primas importadas, por exemplo), da competição, da carga tributária etc. Por exemplo, para o setor de calçados, um câmbio ótimo seria acima de R$ 2,30, enquanto no setor automobilístico o câmbio apreciado não está dificultando as exportações. Não existe um câmbio ótimo, existe uma faixa razoável, pois tem-se que respeitar as peculiaridades de cada segmento. Um câmbio considerado ótimo para a economia, como um todo, só é encontrado nos textos acadêmicos e nos modelos desenvolvidos por professores em universidades. Porque na realidade, o câmbio de equilíbrio depende da oferta e da demanda de moeda estrangeira, mas se a Autoridade  Monetária sempre que deseja realiza leilões para pressionar para baixo o valor do câmbio, como determinar um câmbio de equilíbrio, se o Banco Central está sempre monitorando o mercado de câmbio.

 

 

 

 

 

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Produção e Edição

De León Comunicações