De
24 a 30 de julho de 2007 – Ano II – Edição 98
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Opinião
Tráfego aéreo no Brasil: Uma Responsabilidade Social
* Francisco Antonio Feijó
Quase um ano após o
lamentável choque entre um Boeing da Gol e o Jato Executivo Legacy, em
29 de setembro de 2006, outro terrível acidente aéreo acontece em
Congonhas, São Paulo, no dia 17 último, vitimando quase duas centenas
de pessoas e nos obrigando a uma reflexão mais profunda sobre os
problemas da aviação no Brasil, que já se estendem há algum tempo,
infelizmente, sem solução, nem perspectivas de melhora.
Daquela ocasião até esta
data, foi refeita a pista principal do Aeroporto de Congonhas que,
açodadamente, pelo que dizem os técnicos, foi aberta ao tráfego com toda
pompa e, que agora, esses mesmos especialistas anunciam, estaria
incompleta, imprópria ao uso, em razão da falta de “ranhuras” que
permitem o escoamento da água das chuvas.
E pior ainda, pelo o que
ouvimos, as comunicações entre a torre e os pilotos estariam
prejudicadas, uma vez que os controladores não souberam se o piloto do
referido avião teria recebido o aviso de que havia água na pista e que
deveria tomar cuidados adicionais ou então adiar o pouso.
E o que é mais
importante, as aeronaves do porte do Airbus não teriam condições de
pousar em Congonhas, não obstante sejam consideradas a mais nova geração
de aeronaves em operação no mundo.
Por tudo isto, concluo
que o artigo que fizemos alguns meses passados, publicado na edição 84
do Informativo CNPL, que circulou em 17 de abril
último (veja site) continua atual, pois quando o elaboramos, havíamos
lido uma notícia que nos deixara estarrecidos a respeito do
relacionamento ar/terra dos pilotos e controladores e, em especial, nos
referíamos ao acidente com o Boeing da Gol e ao apagão aéreo, mostrando
que a história mais uma vez se repete e nada foi resolvido.
Enquanto isso, nós, os
passageiros, já estamos nos acostumando a esse desrespeito, a desatenção
e aos maus tratos, como se fôssemos gado, levados à morte, sem direito
à defesa e sem querer morrer.
E pior ainda,
insensíveis aos prejuízos, dores e constrangimentos da população,
autoridades governamentais, companhias aéreas, pilotos e controladores
de vôo não se entendem no relacionamento técnico terra/ar, que são
obrigados a manter, colocando em risco vidas preciosas de cidadãos que
precisam e têm o direito de ir e vir, discutindo entre si, a quem cabe a
culpa, ou comemorando ostensivamente, sem pudor, grotescamente, ao
descobrir que a culpa não teria sido de A e sim de B, mas quem morreu
foi C - o passageiro.
Enquanto a caixa preta
permanece obscura, sem definições objetivas das culpas diretas, apesar
de que no geral todos são responsáveis, surge uma importante
interrogação diretamente relacionada às entidades de Classe que
congregam profissionais liberais.
A preocupação recai
sobre as autoridades governamentais e aeroportuárias, sobre as
companhias aéreas, sobre o homem, piloto que comandava a aeronave ou
sobre o dirigente sindical por permitir que uma situação dessas perdure
e crie perniciosas raízes?
Creio que sobre todos,
primeiramente sobre o homem, ou os homens que integram as entidades e
que, ao mesmo tempo, se utilizam por dever de ofício do transporte
aéreo, sobre os dirigentes sindicais, por que deveriam entender que está
ocorrendo um choque entre duas categorias importantes de alto nível
técnico, responsáveis por nossa segurança em terra e no ar; sobre as
autoridades governamentais pela leniência na solução dos problemas e
sobre as companhias aéreas que colocam o negócio acima de qualquer
interesse humano.
O assunto do artigo anterior continua vivo, como
se se escrito hoje:
Imagine se um
profissional liberal de outra categoria, como médico, engenheiro,
contador ou advogado, simplesmente por estar de mal com a vida ou com
terceiros, decidisse praticar um ato falho em sua especialidade
profissional, prejudicando seu cliente, seu atendido, seu constituído.
Este seria punido eticamente por seus órgãos de classe, seria execrado
por sua comunidade.
Tomando conhecimento do
cenário que envolve a situação aérea brasileira, as coisas que estão
acontecendo no céu, no espaço aéreo, e nas salas escuras dos
gabinetes, empresas, sindicatos e controladores de vôo, sinto medo.
Medo de viajar nesta
semana e na outra e nas que se seguirão. Com certeza, se pudesse não
viajar, não viajaria.
Será que esta semana a
minha aeronave vai ficar voando baixinho na saída de Congonhas, parada
no ar como um pássaro que, infelizmente, não sabe o que fazer, ou ficará
subindo, subindo até alcançar sua altitude de cruzeiro para nivelar e
seguir tranqüilamente sua rota? Ou será que uma vez em terra, quando a
viagem estiver terminando, terminarei minha vida em um trágico,
inesperado e inexplicável acidente?
Atitudes precisam ser
tomadas, com urgência para resolver essa situação que nos deixa a todos
em pane. Mesmo respeitando, como sindicalista, o direito de liberdade
sindical, entendo que excessos não são bons e que quando um problema
demora muito tempo para ser resolvido, tende a crescer e a se
multiplicar.
Enfim, vamos torcer para
que as autoridades ponham o pé no chão e resolvam esta lamentável
situação o quanto antes, porque afinal de contas, o que fazer neste
Brasil imenso, sem o avião, as tripulações, os comandantes e
principalmente os controladores de vôo?
“Que Deus nos proteja”
esta é a frase que me vem à lembrança. Afinal Ele é brasileiro... dizem.
*
Francisco Antonio Feijó é presidente da Confederação Nacional
das Profissões Liberais – CNPL, Entidade que agrega 38 Federações e 600
Sindicatos de Profissões Liberais;
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