Pressupostos para o crescimento sustentado

* Dieter Brandt

É unânime entre executivos estrangeiros que dirigem e atuam em companhias transnacionais no Brasil, o reconhecimento à competência, criatividade, flexibilidade ante as mudanças e capacidade de superação dos empresários e profissionais brasileiros. Não fossem tais virtudes, dificilmente o País conseguiria manter crescimento anual do PIB num ambiente de negócios nem sempre favorável, em meio a obstáculos complexos da política econômica e sem que se realizem reformas estruturais necessárias à viabilização de estratégias de competitividade amplamente utilizadas nos Primeiro Mundo e até mesmo nas nações emergentes.

Os juros reais mais altos do Planeta, carga de impostos de 37% do PIB, excesso de burocracia, dificuldade de se fazerem cumprir os marcos legais, gargalos na infra-estrutura, precariedade do ensino público (numa era em que educação é sinônimo de desenvolvimento!) e outros problemas enfrentados pelos setores produtivos, embora sobejamente conhecidos, continuam conspirando contra a economia nacional. A imutabilidade de algumas políticas públicas ao longo das últimas duas décadas constitui-se em extraordinário desafio para os setores produtivos, explicando, em grande parte, o porquê de, no âmbito do chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), o País ser o que tem crescido menos nos últimos exercícios.

Uma nação com 190 milhões de habitantes, auto-suficiente em petróleo, detentora das maiores reservas hídricas e biodiversidade do mundo, rico em recursos minerais e terras agricultáveis e detentor da indústria mais avançada da América Latina não pode crescer apenas 2,3%, como em 2005, ou 3%, conforme estimativas para 2006. E isto, num cenário internacional favorável, no qual os demais países do BRIC têm expandido seu PIB acima de 6%, a exemplo de nações como Argentina, Chile e Venezuela.

Fica claro que o Brasil está atrasado no aporte de ferramentas, políticas públicas, estratégias e práticas essenciais ao desenvolvimento. Isto é preocupante, pois contraria a lógica universal estabelecida a partir dos anos 90, quando a globalização tornou imperativa a competitividade em todos os mercados. Tratou-se de mudança radical, que estabeleceu imposições claríssimas ao sucesso das empresas e dos países. À época, o escritor alemão Robert Kurz, no livro “Colapso da Modernização”, fazia interessante diagnóstico da revolução econômica em curso: “A concorrência no mercado mundial torna obrigatório um novo padrão de produtividade e qualidade, configurado pela combinação de ciência, tecnologia avançada e grandes investimentos”.

Em meio a esses fatores, há, no Brasil, alguns gargalos e hiatos a serem reparados, sob pena de o País continuar marcando passo. Além de solucionar a questão dos juros, dos tributos, da previdência social, da educação e da infra-estrutura, há outros itens a serem atendidos. São práticas não recorrentes aqui, mas amplamente utilizadas em outras nações. Isto significa desvantagem competitiva! É o caso da defasagem tecnológica.

No mercado gráfico, por exemplo, há numerosas empresas que ainda não perceberam o quanto é viável solucionar essa questão. Claro que enfrentam o obstáculo dos juros altos, mas há outras alternativas de financiamento, como o leasing, que precisa ser mais estimulado, como ocorre no Exterior, onde é mecanismo importante para o acesso a bens de capital. Além disso, deve-se considerar que o simples aporte tecnológico não é solução completa. É necessário, também, contar com recursos humanos qualificados e aptos ao adequado uso da tecnologia, o que remete à questão do ensino e da educação. No tocante ao marco legal, são fundamentais medidas firmes e eficazes contra a pirataria, em defesa da propriedade industrial e intelectual e, sobretudo, mobilização no sentido de fiscalizar e fazer cumprir leis já existentes.

Trabalho pouco difundido no Brasil demonstra o efeito do atraso na adoção de medidas capazes de ampliar a competitividade. Trata-se de estudo do WorldWatch Institute, denominado State of the World 2004, que mensurou o porte e estabeleceu um ranking dos mercados consumidores (definidos como as pessoas com poder de compra acima de US$ 7 mil). Em primeiro lugar estão os Estados Unidos, com 242,5 milhões de consumidores, ou 84% de sua população. A China vem logo em seguida, com 239,8 milhões de consumidores (19%). A Índia ocupa o terceiro lugar, com 121,9 milhões de consumidores (12% da população); o Japão, que tem a parcela mais significativa da sua população incluída na sociedade de consumo (95% ou 120,7 milhões de pessoas) é o quarto colocado, seguido da Alemanha (76,3 milhões de consumidores ou 92% da população). A Rússia é o sexto, com 61,3 milhões, o equivalente a 43% da população.

O Brasil, com 75,8 milhões de consumidores, ocupa o sétimo lugar no ranking. Este contingente representa, porém, apenas 33% da sua população. Com democracia consolidada, conforme se observou nas exemplares eleições de 2006, o País tem imenso potencial para transformar seus 190 milhões de habitantes em efetivos consumidores. Basta que atenda aos pressupostos que irão viabilizar seu desenvolvimento.

* Dieter Brandt é diretor da Afeigraf (Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Indústria Gráfica) e presidente da Heidelberg para a América do Sul.