É preciso mais que promessas

* Suely Sales Guimarães

Novamente é Ano Novo. As luzes coloridas, a decoração de lojas e residências, o congestionamento maior no trânsito e as chuvas de primavera-verão mudam a paisagem da cidade e asseguram o mágico clima dessa época. A regra diz que o contexto assim formado sinaliza o momento de emitir nossas melhores respostas de ternura, solidariedade, amor, e esperança – respostas culturalmente aprendidas ao longo de toda uma vida e por gerações sucessivas.

Na seqüência de reações ao momento mágico costuma vir o balanço do ano anterior. O que deixou de ser feito, as perdas e as dores pesam mais. As promessas não cumpridas, as decisões revogadas, os caminhos não trilhados parecem agora incrivelmente possíveis. Agora, quando o clima é mágico e lindo, a música resgata a infância e as emoções são nostálgicas e doces, aquelas promessas parecem viáveis, possíveis, tangíveis! E sonhamos mais uma vez mudar para melhor. Tradicionalmente é hora de listar novas promessas de mudanças, simples como fazer uma dieta ou menos simples, como arrumar um namorado(a) terno(a) e lindo(a). Implementar essas mudanças agora parece tão possível como pareceu há exatamente um ano e desejamos isso tanto quanto desejávamos há um ano.

Mas em breve as luzes coloridas vão se apagar, a paisagem vai mudar e a rotina vai retornar. Desfeito o encanto, é muito possível que as promessas renovadas também sejam desfeitas, esquecidas, apagadas. O encanto se quebra uma vez mais. A mágica por si só não se sustenta. O desalento ou o esquecimento retorna e as mudanças não se estabelecem – pelo menos não até o próximo dezembro. Com a velha rotina assegurada, os velhos comportamentos se mantêm. Rotinas não mudam apenas porque achamos que isso seria melhor e nem comportamentos novos se estabelecem apenas porque gostaríamos que assim fosse. Mudanças só ocorrem se nós assim decidirmos e se agirmos conforme essa decisão. Ações definem mudanças.

Um dos princípios da sabedoria popular ensina: “ninguém é obrigado semear, mas semeando deve colher”. A leitura é clara. Há sempre uma escolha com pelo menos duas opções e a decisão por uma delas é pessoal. Ao fazer uma escolha, definimos suas conseqüências que, por sua vez, altera o contexto de nossas vidas gerando novas contingências e novas situações de escolha. O ciclo se repete, sempre nos deixando no papel central, como agentes poderosos de nosso próprio destino e de nossas próprias escolhas.

O futuro e a realização de nossos anseios, de nossos sonhos, de nossos desejos mais ardentes serão definidos, principalmente, por duas condições. A primeira delas é a escolha pensada, feita depois que as possíveis conseqüências e seus desdobramentos a médio e longo prazo são antecipados e considerados. Essas conseqüências definirão situações futuras e os processos de escolha subseqüentes. A segunda condição é o desenvolvimento de habilidades que nos permitam reconhecer e usar, do modo mais vantajoso, as oportunidades que surgem nas contingências naturais da vida. As grandes oportunidades, surgidas no contexto natural, não costumam ser acessíveis a todos. Melhores concursos e melhores empregos são para pessoas preparadas e o preparo requer escolha pelo estudo e pelo treinamento. Melhor qualidade de vida requer escolhas por comportamentos de saúde, manejo do tempo e seleção de situações que ficarão em nossa rotina e de outras que serão abandonadas. Escolhas terão sempre um custo e suas conseqüências também. Os resultados de qualquer escolha serão compatíveis com ela.

Certamente a fórmula não é mágica. Comportamentos acontecem em contextos que variam conforme um número de determinantes nem sempre identificáveis e manipuláveis. Alguns fatos geram grandes oportunidades e outros geram grandes infortúnios sem que o controle seja sempre possível, porque acontecimentos obedecem a uma seqüência de fenômenos naturais ou não, decorrentes de nossas próprias ações, de terceiros e da natureza. Oportunidades “únicas”, grandes tragédias ou uma rotina monótona dependem também da variação nos contextos socioeconômico e geopolítico e de nossas respostas a eles.

Nossas histórias de escolhas e preferências determinam tanto a manutenção quanto a modificação de nossa vida em diferentes direções. Oportunidades espetaculares não surgem em cada esquina, mas quando acontecem são acessíveis apenas aos melhores preparados e que souberem responder a elas. Namorado(a)s lindo(a)s e gentis estarão disponíveis às vezes, mas para pessoas capazes de estabelecer e manter boas relações com o outro. Emagrecer acontecerá para aqueles que adotarem novos hábitos alimentares ou rotina de exercícios físicos.

Ser otimista é salutar quando isso mantém a atenção voltada para as possíveis oportunidades e a determinação em aprimorar competências. Mas quando a situação acontece, a mudança desejada requer ação. Bons empregos, bons parceiros, melhores ganhos e muito sucesso são previstos para pessoas que agem em conformidade com seus desejos. Feliz Ano Novo e boas escolhas – agora e sempre.

* Suely Sales Guimarães é pesquisadora associada do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília