Central que não é do Brasil

* Francisco Antonio Feijó

Muitos talvez não tenham conhecido a Central do Brasil, não obstante recente e belíssimo filme do cineasta Walter Salles, a tenha retratado, com fidelidade e emoção, mostrando a vida de milhares de brasileiros que vivem migrando pelo País, buscando um lugar com condições mais dignas. Com a realidade da obra, quase nos trouxe um Oscar.

A Central do Brasil foi uma empresa estatal que por via férrea ligava o Rio de Janeiro a São Paulo, inicialmente em um trem movido a lenha, a chamada Maria Fumaça e, posteriormente, a diesel.

Esse trem cortava o Vale do Paraíba e chegava a São Paulo por Mogi das Cruzes, correndo grande trecho ao lado do Rio Paraíba em um percurso que durava em média 6 horas.

Hoje, quando se fala em Central, não se pensa mais na Central do Brasil, inclusive, por estar desativada a muito tempo e sucateados o trajeto, seu leito e trilhos.

Atualmente, a Central significa um conjunto sem personalidade jurídica, que congrega entidades sindicais, que se propõe a comandar e controlar os destinos de trabalhadores no País, ou no mundo, como aconteceu recentemente em Viena, Áustria, quando da fusão de duas aglomerações sindicais mundiais: a CMT – Confederação Mundial do Trabalho e a CIOSL – Confederação Internacional de Organizações Sindicais Livres. Com isso, surgiu a CSI - Confederação Sindical Internacional.

Duas medidas provisórias, a 293 e 294 pretendiam que as centrais acabassem controlando toda a malha sindical, desmontando a pirâmide: sindicato, federação e confederação. As MPs foram derrubadas no Congresso Nacional, no dia 04 de setembro de 2006, mantendo íntegro o esqueleto que há anos funciona no Brasil.

Na realidade, o que pretendiam com as Medidas Provisórias era a possibilidade de sindicatos, de uma mesma categoria profissional, participarem diretamente de uma Central levando ao caos o sistema federativo que não teria como controlar a categoria, pela diversidade de entendimentos em suas bases.

Recentemente, o próprio Governo Federal voltou a se manifestar e querer conversar com as Centrais e não com os sindicatos, o que, obviamente, traz uma força imensa, centralizada em poucas pessoas.

Nada contra as Centrais, desde que obedecido o princípio da união sindical, ou seja, determinadas categorias, sindicatos e federações se reúnam ao redor de uma Central.

Somos contra a possibilidade da divisão da Central em participar da base de alguns sindicatos de determinada categoria e, outros em outra corporação, deixando vazio o sistema federativo e permitindo o enfraquecimento da categoria e a dificuldade de negociação.

Este assunto ainda será objeto de muita discussão, principalmente quando se trata de sistema sindical que envolve profissionais liberais, tendo em vista que a quase totalidade das Centrais não tem interesse nesse segmento. A que demonstra interesse, não conhece o assunto e esquece que os profissionais liberais são, no Brasil, os grandes formadores de opinião, em razão de sua formação profissional altamente técnica, sem qualquer demérito aos demais trabalhadores.

Nosso segmento, ainda desconhecido para a grande maioria da população, tem conselhos e ordens que os registram e fiscalizam. Além dos sindicatos que os defendem, federações que os congregam e uma confederação: a CNPL - Confederação Nacional das Profissões Liberais que reúne todo esse sistema.

Somos alguns milhões no País e estamos tentando sair do desconhecimento, entretanto, precisamos buscar nossos espaços.

Iremos buscar nossa Central, que será do Brasil, pois estamos em todos os Estados da Federação. Somos trabalhadores como todos os outros, que ajudam a alavancar esta nação. Não seremos movidos por uma máquina a lenha, uma Maria Fumaça, porque isto leva ao desmatamento e não queremos desmatar, ao contrário, queremos plantar e colher os frutos desse plantio.