O Brasil possui o melhor sistema tecnológico da América Latina

Essa afirmação é do novo presidente do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), Marcos Túlio de Melo, que assumiu a entidade agora em janeiro e concedeu entrevista exclusiva ao Informativo CNPL. Túlio, engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, falou também sobre questões como educação continuada, importância dos profissionais participarem de entidades sindicais, reforma sindical, responsabilidade social e entras que envolvem os profissionais liberais e da área tecnológica.

Qual a posição do CONFEA sobre a Reforma Sindical?
Marcos Túlio de Melo - A polêmica sobre a proposta de reforma sindical recolocou a discussão sobre a necessidade de mudanças na estrutura sindical brasileira, reclamada desde o surgimento do novo sindicalismo, no final e década de 70. Essas discussões devem priorizar a ampliação da proteção ao trabalho e aos direitos conquistados, como no nosso caso específico, o cumprimento do salário mínimo profissional. Qualquer reforma sindical, no entanto, deve servir para fortalecer a organização das categorias profissionais e econômicas, pois só numa sociedade com organizações fortes, poderemos pactuar as bases para seu desenvolvimento. Ao Sistema Confea/Crea, que conta com a atuação de sindicatos e associações de classe, independentes e autônomas, interessa o fortalecimento de todas elas. Dessa forma, não poderíamos concordar, por exemplo, com a exclusividade da organização por ramo de atividade, cassando o direito de representação das categorias diferenciadas, notadamente dos profissionais liberais, ou seja daqueles que têm regulamento próprio, como engenheiros, arquitetos, agrônomos e técnicos.

No cenário mundial atual, qual a importância da educação continuada?
Marcos Túlio - A educação continuada é fundamental para todos os profissionais no mundo atual, mas de maneira especial para nossas categorias da área tecnológica. As mudanças profundas e aceleradas que ocorrem trazem inovações permanentes e nós temos de estar atentos e nos capacitar para acompanhá-las. Isso só será possível primeiro se aprendermos a aprender e, segundo, se tivermos um sistema de ensino de qualidade. Sabemos que não é possível mais pensarmos numa só carreira para toda a vida. Como diz o pensador Richard Sennett: não há mais longo prazo. Hoje não há um momento de formação como antigamente e, depois, um momento de execução daqueles conhecimentos que obtivemos e/ou construímos durante o chamado “período escolar”. Para dominarmos todo o volume de conhecimentos disponível no mundo contemporâneo teríamos de ter cursos que durariam muitos e muitos anos. Daí a tendência de aparecimento de cursos de menor duração, mais flexíveis, mais genéricos na graduação e a proliferação de cursos de especialização e mesmo os cursos profissionalizantes, mestrados e até doutorados. Sem entrar no mérito daqueles cursos, o fato é que temos de nos capacitar permanentemente para acompanhar as mudanças e, mais que isso, o processo de aceleração dessas mudanças.

Qual a importância dos profissionais participarem de sindicatos e entidades de classe?
Marcos Túlio – É fundamental, pois através da participação podemos reivindicar coletivamente melhores salários, melhores condições de exercício de nossas profissões e até mesmo de propor programas e projetos para melhoria do ensino, por exemplo. Nossos sindicatos e entidades são legítimos representantes junto a empresas, governos e órgãos públicos e só nossa efetiva participação lhes dá força social, política, econômica e cultural.

Como pode se dar uma ação conjunta CNPL/CONFEA?
Marcos Túlio – O Confea e a CNPL podem ser fortes parceiros na proposição de políticas públicas que garantam tanto a valorização das profissões quanto a melhoria das condições de vida da população. Podemos somar nossos recursos, humanos e financeiros para facilitar nossa atuação. Podemos incentivar o debate de questões nacionais, regionais e locais e a participação dos profissionais, entidades de classe, instituições de ensino, organizações da sociedade civil e empresas na formulação de um Projeto de Desenvolvimento Nacional Sustentável. Penso que teremos pela frente esse desafio e que juntos, através de Fóruns diversos, podemos enfrentá-lo melhor.

Como o senhor analisa a tecnologia brasileira no contexto mundial?
Marcos Túlio – Atualmente, o Brasil investe no setor o equivalente a 1% do PIB, devendo alcançar 2% até 2006. Sem dúvida, o País possui o melhor sistema de tecnologia da América Latina. Dominamos a prospecção de petróleo em águas profundas, atuando inclusive em países como o Canadá. Somos também destaque no campo da construção de aeronaves, temos recordes de exportação do agronegócio, programas Espacial e Nuclear, além da inserção em novas áreas como a nanociência, a nanotecnologia e a biotecnologia. Em função disso, o Brasil passou do 28º lugar em 1995 para o 17º em 2005 entre os países com produção científica relevante. O Plano Plurianual do Governo Federal prevê investimentos de R$37,6 bilhões, de 2004 a 2007, percentual 54% maior que os R$ 24,4 bilhões empregados de 2000 a 2003. O aumento nos investimentos permitirá ao País avançar ainda mais. Entretanto precisamos avançar muito. Em 2008 teremos a WEC-World Engenieers´ Convention aqui, evento que será importante para o nosso Sistema Profissional e importante também para todo o País, pois permitirá a discussão da tecnologia, a troca de experiências.

Como o Conselho pretende tratar o tema acessibilidade junto aos profissionais da área tecnológica e á sociedade?
Marcos Túlio - Acessibilidade é um tema prioritário para nós do Sistema Confea/Creas/Mútua. Venho de uma experiência de gestão no Crea de Minas Gerais onde o colocamos em destaque e atuamos, juntamente com outras organizações da sociedade civil, órgãos públicos e instituições de ensino superior, no sentido de transformá-lo em um ponto da pauta nacional. O plenário do Confea encampou a experiência mineira da campanha “O inacessível é inaceitável”, através da qual fiscalizávamos, em parceria com o Ministério Público, edificações. No ano passado acertamos com a CNBB nossa participação na Campanha da Fraternidade deste ano que terá como tema a Acessibilidade. O Confea, que já trabalhava com a campanha Fácil Acesso para Todos, nessa nova gestão deve ampliar sua participação.

Nos próximos anos, como o Confea atuará nas políticas públicas?
Marcos Túlio - Pretendemos trabalhar de forma que tenhamos condição de debater e propor políticas públicas que garantam o desenvolvimento nacional sustentável. Buscaremos atuar junto aos poderes legislativo, judiciário e executivo para influir em suas decisões relativas a todas as questões de interesse da sociedade e dos profissionais da área tecnológica. O Confea está entre os maiores sistemas profissionais do mundo. Somos quase um milhão de profissionais e empresas. Temos muito a contribuir na solução de problemas que afligem nosso povo e estou convicto de que não podemos nos furtar a dar nossa contribuição. A nossa participação na formulação de políticas públicas é um dever. Daí a importância que tem para nós a discussão do Plano Diretor. Em 2005 todos os Creas trabalharam em conjunto com poder público e organizações não-governamentais no sentido de colaborar, inclusive tecnicamente com a elaboração dos Planos Diretores. Um outro projeto defendido pelo Confea e pelos Creas é a Engenharia, Arquitetura e Agronomia Públicas que já se tornou lei em muitas cidades. Em Belo Horizonte, por exemplo, a Engenharia e Arquitetura Públicas se tornou lei em 2004 e agora em 2006 já começaremos a ter os primeiros resultados. Agenda 21, Protocolo de Kyoto, o Sistema Confea/Crea tem buscado apoiar e participar efetivamente de todos os projetos que garantam o desenvolvimento sustentável.

Quais as ações da nova gestão sobre responsabilidade social?
Marcos Túlio – Nos alinharemos, como parceiros efetivos, a todos aqueles movimentos que já levantam essa bandeira da Responsabilidade Social. Os compromissos que assumi durante minha campanha, pretendo cumprir. Este é um deles e pretendo sempre trabalhar em conjunto com os Creas, as entidades e instituições de ensino e organizações da sociedade civil. Visitarei representantes do Transparência Brasil, do Instituto Ethos e da CNBB logo no começo do meu mandato para propor formas de atuação conjunta.

DE LEÓN COMUNICAÇÕES
Jornalista Responsável
Lenilde de León (lenilde@deleon.com.br)
www.deleon.com.br